segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Em setembro começa

A fazer um calor péssimo e a abafar, e aí eu começo a amaldiçoar ao cubo, muito mais do que o normal, morar aqui. Aí eu fico querendo muito ir embora, mas querendo mais, com força e ódio. Só quem tem o sonho de ir embora sabe do que tô falando.

Odeio o Brasil? Não. Acho tudo aqui uma porcaria? Não.

Mas quero. E minha vida acaba se resumindo a imaginar que em Berlim/ Londres/ Lisboa está tipo uns 10 graus e no meu aniversário deve rolar até um início de frião que eu nunca vi (mais frio que já peguei foi 0º em Petrópolis num dia dos namorados). E aí né, que deprê de estar passando por esses 31.5º na sombra tendo que ligar de novo porque a telefonia é um horror e o trânsito aqui deixa a Índia no chinelo.
Fora o horário de verão que torna minha vida um eterno retorno (bj Nietzsche) pro que meu avô chamava de "horário de Deus" - é eu e marido lembrando a cada horário olhado no relógio que "era pra ser X horas" / "no horário de Deus são Y horas".
Enquanto isso eu tento ficar mais arrumadinha colocando um lenço bonito por cima da camiseta mas tá muito calor pra isso, pra maquiagem, pra cabelo solto, pra simpatia, pra paciência.
Difícil demais ser chique nesse país.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Essa coisa de chamar os outros de coxinha

     Mas me dá uma preguiça TÃO GRANDE quando eu fico vendo as pessoas chamando as outras de coxinha na internet. Mas muita.
     Porque geralmente chama-se de coxinha quem não vai votar na Dilma, hoje em dia, esses dias eleitoreiros de meu Brasil.
     Vão por aí uns quatro anos atrás coxinha era aquela pessoa chatinha, besta, "classe média sofre", que acha que tá no topo do mundo, que "come carne seca e arrota caviar" (essa é ótima). Arrogante sem bancar. E antes que me venham chamar de coxinha também por supor que estou dizendo que há modo de bancar a arrogância favor clicar no X no canto superior direito da tela. Grata.
     O que me incomoda: pensou diferente de você, é de direita, é rico, dirige carro e você não, paga 8 conto num café é coxinha. Faz francês na Aliança, não come fritura, decidiu só comer carne vermelha três vezes na semana pra ir parando, é coxinha. Vai no cinema ver filme 3d e posta foto no insta = coxinha. Essas coisas.
     Mas gente num me enche o saco.
     Essa postagem não tem nada de edificante, é só pra dizer o quanto me cansa, esgota, satura, derrota morar aqui com vocês. Amo o Brasil, mas vocês não ajudam.
     Ah, tem outra modalidade de coxinha: aquela pessoa que critica o Brasil. Como se o fato de amar meu país (e eu amo) e querer que ele cresça (e eu quero) faça com que você tenha que aprovar every-single-thing aqui no território. Faça-me o favor. Não, não aprovo. Não acho certo que a política atual do nosso governo faça com que a pessoa que estudou mais vá perder emprego pro moleque do pronatec.
     NÃO É CULPA DO MOLEQUE - é culpa dos responsáveis pela educação básica de qualidade. Se essa educação fosse completamente reformulada o moleque chegaria no pronatec, no prouni, na pqp sabendo ler & escrever & fazer conta & quem foi Montesquieu. Bem essa coisa que vocês chamam de burguês. E aí eu acharia uma competição super justa, mas não é.
("Mas joyce quem é você que fez federal pra querer competir com o menino tadinho que veio do morro" olha, não sou filha de rico e na hora de entregar currículo é competição sim. Não sejamos cegos.)

     E sabe por que não é?
     Por que o empresário morre de pagar imposto, além da insegurança econômica que o país passa para ele. O que ocorre? Muito melhor pagar menos pro moleque do pronatec do que um salário bacana pro mestre/ doutor. E aí quem ralou pra estudar* perdeu emprego porque "o governo" não se preocupou em melhorar a educação básica e enfiou goela abaixo do povo um jeito de "educar" (=dar certificado) pra todo mundo - os pro da vida. Não tá certo. E o próprio moleque não sabe que poderia ganhar muito mais e, de novo, fica aí acostumado no pouco.

*claro que muitas vezes o "ralar pra estudar" tem a ver com um pai que pode pagar a faculdade ou o cursinho, mas leia a seguir o argumento todo pra vc ver que isso que acabei de falar tem o menor peso na coisa toda:

     Tem que abrir vaga? Tem. Tem que ter pronatec? TEM. É ótimo. É maravilhoso. O problema é quando fecham os olhos para a situação ridícula que está na base educacional do país e acham que estão consertando tudo enfiando certificado na cara da galera. Ninguém está crescendo efetivamente ou sendo verdadeiramente educado nessa boleira. Simplesmente enfia todo mundo em escola e conta pra deuziomundo que tá todo mundo na escola. Aham. Família de professoras de educação básica, meoamor: as criança tá tudo no 5o ano sem saber ler. Tá? O que deveria ser feito: consertar de baixo a estrutura da nossa educação e aí sim fazer programas de bolsa para as pessoas que chegaram bem preparadas no fim da escola, ou seja, todas (nesse caso). Todo mundo. E não essa coisa de inventar modos de dar emprego para as pessoas mais pobres sendo que elas poderiam muito mais se fosse dada a elas condição de qualidade de estudar desde sempre, e não um estímulo para contratar apenas técnicos. Assim, as diferenças seriam drasticamente diminuídas. Todo mundo com as mesmas condições de estudo, de base, e a diferença entre o Jão que fez cursinho e o Zé que estudou no estadual seria nula: os dois com a mesma condição de fazer e concluir satisfatoriamente os estudos.
     Claro, óbvio, melhor isso que nada, esses meninos talvez nem no técnico chegariam se não fosse o pronatec etc etc. Lógico, gente. Não sou idiota. Por isso disse que sim, os programas são ótimos, as vagas são ótimas, tem que ter. Só não concordo que se ache lindo e maravilhoso e solucionástico que esses programas resolvem o problema educacional e do emprego no Brasil. Não resolve. Isso só faz com que quem é pobre tenha uma educação deficiente e uma ilusão de crescimento (ganhando pouco quando poderia crescer muito) e pra mim isso só reforça a desigualdade: não lutar pela educação de qualidade desde sempre é lutar pela manutenção do que já existe - é afirmar que "mas se não fosse o programa nem isso ele ia ter", que é dar uma desculpa pra não mexer onde tem que ser mexido. Espero que se conserte 500 anos de erros em 4? Não. Mas não quero pra mim um governo que só pensa nos 4 + 4 (da reeleição) e que não deseja por a mão na massa e fazer a reformulação necessária. Demoraria décadas, imagino eu aqui da minha humilde cadeira. Mas tem que fazer. Não é paliativo, é solução real.
     E o que mais leio de resposta no facebook quando pessoas expressam opiniões como as minhas, é "vai morar na Europa". Vou sim. Ano que vem, se Deus quiser.

ps: não, não tem solução.

ps2: aos amigos que leem: se vc tá decepcionad@ com minha opinião, sinto decepcionar, não exponho no face porque não gosto de polemizar etc. espero que nossa amizade não tenha nada a ver com isso.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O balaio

     Estava respondendo uma pesquisa de público de um blog hoje e percebi que, quando eles perguntam idade nessas coisas, colocam umas faixas etárias tipo assim: de 15 a 20 anos/ 21 a 25/ 26 a 30.
     Ainda que haja variações na primeira faixa, as duas últimas que citei são quase fixas: se você tem 25 está no balaio das que têm 20; se você tem 26, está no balaio das que têm 30.
     Problema? Nenhum.
     A postagem veio na minha cabeça mais como uma constatação com relação a balaios do que com relação a idades (e com certeza tem a ver com o fato de que entro pro balaio de lá mês que vem). Mas como assim balaios?
     Fiquei pensando quantas vezes por dia, por hora, somos colocados e nos colocamos em diversos. Dia 16 de agosto me coloquei no balaio das mulheres casadas. Tem também o balaio das casadas sem filhos, das pessoas casadas em geral (sem distinção de sexo), das heterossexuais, das que usam aliança, das que casaram na igreja, no cartório, etc.
     Esses são os que têm certa relação com o casamento em si. E os outros, tantos, muitos? Mulher, homem, come carne, é brasileiro, pinta cabelo, magro, deficiente, extrovertido...
     Fiquei, mesmo, pensando quantas e quantas vezes usamos os balaios como desculpa, como cabeçalho de um relacionamento (de qualquer teor), como motivo de preconceito. É alemão? É frio. É mulher? Não sabe dirigir. É homem? Trabalha fora e não faz nada de serviço de casa. É cristão? É burro, homofóbico e resignado.E por mais que digam que isso não é verdade, coisas que derrubam de certa forma as construções desses balaios são exatamente aquilo que vira notícia - a propaganda "moderninha" de inseticida, a notícia sobre mulheres taxistas, ou quando um bando de nórdicos fazem uma homenagem de aniversário pra um motorista de ônibus querido. Concordo: têm que haver essas coisas pra mostrar, mas o fato que 1 - seja necessário/ 2 - as pessoas briguem dizendo que "não há preconceito"/ 3 - ainda haja surpresa com relação a uma construção de balaio desfeita me incomoda, e me incomoda mais ainda quando percebo que eu mesma, inevitavelmente, caio nessa trama.
     Tento muito não estar embalaiada. Mas estou, me embalaio e me embalaiam todos os dias quando me olham, quando falam comigo, quando sabem algo sobre mim e eu faço o mesmo, ainda que seja minimamente consciente e tente lutar contra isso (além de haver vezes em que eu não preciso lutar e, graças a Deus, isso já vem naturalmente).
     Claro que é também algo útil: construímos nossa identidade com grupos, com definições mais ou menos formatadas e depois vamos moldando mais ou menos conforme percebemos ser o melhor ou mais correto de acordo com nossas definições. Mas que definições são essas? São realmente nossas e livres?
     O que me enlouquece é pensar que provavelmente não haja liberdade nenhuma, nem mesmo quando imaginamos estar escolhendo e mudando para nos adequarmos à forma "nossa" de ser. Quando foi que existiu uma escolha decisão, livre de preconceitos, de história de vida, de édipos, de, de, de...?