sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Eu perdi Harry Potter

     Não, você não voltou no tempo e não está lendo uma postagem antiga. Eu, de fato, perdi HP pelo menos há uns 13 anos.
     Eu, quando do lançamento da saga e seu sucesso louco aqui no Brasil, já gostava de ler literatura. Sempre fui de um gosto meio estranho pra minha idade, que me acompanha (com menos estranheza) até hoje. Pra se ter uma ideia, eu e Jamille, minha amiga, trocávamos presentes escolhidos (cada uma escolhia o que queria ganhar da outra) e não foi que no meu aniversário de, sei lá, 13 anos, eu pedi o CD O Melhor do Simply Red, enquanto todo mundo estava pedindo agendas da Capricho? Já mostrava algo errado na minha adolescência. E amo SR até hoje.
     O que rolava: eu gostava muito de ler coisas tipo Drummond, umas crônicas tipo Scliar, Otto Carpeaux, Veríssimo (O Luis Fernando), Mafalda, Calvin, etc. E quando eu via todo mundo gostando de Harry Potter, uma história de bruxinhos que não usavam energia elétrica e escreviam com penas (se eles são tão foda, porque não aproveitar esses artefatos/ não inventaram maneira melhor de iluminar que velas?). E aí eu ia com minha lógica irrefutável me negando a ler o que todo mundo gostava, em parte, também, porque todo mundo gostava. Veja bem, meu abuso desenvolvido pelo comportamento hipster talvez venha do fato que eu, na altura dos meus 13 anos, tenha praticado ligeiramente um hipsterismo.
     E eu lembro muito bem que a Elaine, uma menina que estudava com a gente, tinha um vício especial por Harry Potter. Eu sabia que Vingardium Leviosa era o feitiço de levitar as coisas porque ela não parava de falar disso. Da coruja. Do num-sei-quê. Era chato. Eu ouvia Djavan. Eu era chata.
     E então passou o tempo e eu não li nenhum livro do HP durante minha adolescência. Por princípios, também não vi os filmes (quando há filmes baseados em livros eu só os assisto se realmente não houver chance de eu me interessar pelo livro). E nos anos em que eu tinha 16, 17 anos e etc eu não pensei nisso. Os filmes tinham saído do cinema e meu namorado não se interessaria em alugar HP como filme de fim de semana.Ficou pra lá.
    Mas acontece que a vida, né, essa danada. Lá na época do boom do HP a Jamille já gostava. E continuou gostando porque, como vim eu a descobrir, não tem como desgostar de HP. E quando entrei na faculdade, foi minha vez de quebrar com o hipsterismo: no meio de um monte de gente babaca que diz que não é literatura porque e best seller, eu encontrei um tanto de gente que mais que gostava da história da J. K. E aí a vida me deu uma segunda amiga apaixonada por HP, a Juliana.
     Não tinha nada pronto na minha cabeça. Eu não decidi nada. Eu me formei, eu estudei antropofagia artística, li Eneida, interpretei a profunda semântica da poesia parnasiana (risos), e me formei, e entrei no mestrado. No ano em que fazia 24, no aniversário em que ganhei, da Jamille, Harry Potter e a Pedra Filosofal. Sem nenhum aviso. Sem nenhum preconceito, eu abri o livro e acabei com ele em dois dias.
     No meio do mestrado, era impossível pegar qualquer coisa pra ler que não fosse acadêmica. No meio de muito Fernando Pessoa, foi só no outro aniversário que ganhei Harry Potter e a Câmara Secreta. No mesmo aniversário, mas ganhado atrasado, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (da Larissa). Defendi a dissertação: era mestre. Emprestado, li Harry Potter e o Cálice de Fogo (tá comigo até hoje, amiga! sorry) e num desespero absurdo de continuar lendo, comprei Harry Potter e a Ordem da Fênix, o maior deles, que li em uma semana (entre ser casada, trabalhar e estudar). Nos últimos dias assisti a todos esses filmes (não a todos pois faltam dois livros para ler).
     E foi assim que eu também me apaixonei pela história. E perdi Harry Potter porque eu tinha a idade perfeita pra começar a gostar dele junto com todo mundo. Eu perdi as noites que minhas colegas passavam na frente da internet discada traduzindo pedaços vazados do livro pra saber o que ia acontecer sem ter de esperar a Rocco. Eu perdi poder falar disso com minhas colegas o recreio todo, eu perdi achar o Harry bonitinho, eu perdi a oportunidade de ir ao cinema cinquenta vezes até acabar a exibição - e fantasiada. Eu perdi.
    O que eu tive foi a oportunidade de começar a conhecer uma das histórias mais lidas no mundo já adulta, já formada em Letras, já mestranda em literatura, já professora. O que tive foi a visão encantada da diversão somada a uma visão maravilhada com a amarração do enredo, com a genialidade da sacada da autora, que pegou um assunto tão velho quanto bruxaria e amor e transformou numa história de vitória do bem sobre o mal. O que consegui foi apreciar uma mulher que, desempregada e com filho na barra da saia, tirou da própria cabeça uma coisa que, pra mim, é um sonho: escrever algo bom. O que ganhei foi toda a emoção de ver que é aquilo que tem que ser dado pros nossos adolescentes lerem, e não esperar que eles gostem de Machado aos 12 anos, porque não vão. Não seria nem certo. E que aquilo é uma literatura e tanto.
     Eu perdi Harry Potter, mas como eu ganhei com ele.

Special thanks to: Jamille, a primeira a insistir (e não desistir, mesmo 13 anos depois) que eu deveria ler; Juliana, que me mostrou que literatura é muito mais que o cânone (amg, justifiquei o texto só por sua causa); Waldyr, que deu um tapa na cara da turma dizendo isso aí em cima que falei do Machado, e hoje é um dos melhores professores e escritores que tenho a honra de conhecer; Larissa Andrioli, que me fez gostar e "entender" (ainda não vi o ponto) o Snape desde a primeira linha da saga e me fez entender os spoilers infinitos sobre ele; Márjori, que agradeceu à J. K. no seu convite de formatura, e isso faz todo sentido; Gabriel, que me mostra todos os objetos-desejo HP da vida (quero/ preciso de um moletom da Corvinal); Isabella, que lê um tanto de coisa que eu achava impossível pra uma menina (já não) tão nova; Larissa Pícoli, que tem um cachorro chamado Rabicho e eu ainda não entendi o porquê disso porque ainda odeio ele.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Uma tarde na padaria (ou "vai à merda, menina")

     Costumamos lanchar numa mesma padaria, quase todos os dias, aqui perto do trabalho, no centro. Lá tem o melhor pão de queijo de padaria que já comi e o café é bom, o que é um must. Como quase todos os dias, hoje voltei lá para lanchar.
     A questão é que é uma padaria que quase sempre está cheia, então ou você fica mais ou menos espremido no balcão ou aguarda abrir uma vaguinha. E esse espremido é um espremimento normal, nada que as pessoas fiquem encostando em você enquanto lancha nem nada. Apenas falta de espeço em troca de um pão de queijo espetacular. I can handle it.
     E eis que hoje vejo que faltam 5 minutos pra sair o pão de queijo - me animo e espero. Vou até a geladeira e pego um chá gelado (o calor não deixava tomar café) e parei num espaço do balcão pra aguardar os, agora, 4 minutos. Entra uma senhorinha na padaria,  E então ela mostrou as garras (que dramático meu texto). Ela passou por uma moça que estava lanchando mais na entrada da padaria que falava ao celular. A moça estava falando algum assunto que era claramente de trabalho e numa altura perfeitamente normal e educada. A senhora resmungou MUITO ALTO dizendo algo do tipo "telefone celular, vê se pode" [Favor ler tudocomo se estivesse sendo irônico e com raiva] e ela para exatamente do meu lado esquerdo, onde havia talvez 67% a mais de espaço do que num dia normal entre mim (sim, é entre "mim" que se fala) e a outra pessoa. Sim, havia outros lugares, mas na hora achei que ela não queria/ podia andar muito e teve que parar ali. Já senti o clima pela resmungação dela e foi aqui que veio:
     - Você pode chegar um pouco pra lá?
     Eu não resisto a uma oportunidade de usar toda essa ironia guardada no meu coração:
     -Sem dúvida que sim.
     Até porque não queria que ela começasse a resmungação sobre minha pessoa. A moça do telefone encerrou sua ligação com toda calma e a senhora recomeçou a atacá-la de modo "indireto" (atenção às aspas), falando super alto como era absurdo a moça estar no celular. A moça diz:
     - Minha senhora, eu estou no telefone porque estou trabalhando!
     - E o que eu tenho com isso?
     (Aqui eu saio do lado da senhorinha e vou pra ponta do balcão)
     - Exatamente, o que a senhora tem com isso pra ficar falando?
     (Achei ótimo. Rolaram alguns outros gritos que não consegui identificar e a moça voltou ao "o que a senhora tem com isso". Achei ótimo de novo porque ela tinha toda razão).
     Na falta de argumento a senhora, do alto de sua bengala e de seu sobrepeso e cabelo branquinho, grita:
     - Ah, vá à merda, menina, EU SOU POLÍCIA FEDERAL FEMININA E NÃO TOLERO ESSE TIPO DE COISA.
     Preciso falar que a galera meio que riu/ meio que ficou sem graça de rir porque era uma senhora? Preciso falar que a moça ficou muito puta/ sem graça de ficar puta porque era uma senhora?
     Nesse momento rolou todo um arrependimento de ter saído de perto pois não consegui entender o diálogo curtinho que seguiu. Fiquei olhando a moça de longe enquanto comia pão de queijo, quis ir lá falar com ela porque vi que ela tava chateada. Eu também ficaria.

     Numero 1: lembrei desse vídeo:


     Número 2: babacas também envelhecem. E eu teria falado isso aí pra moça do celular.