segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Chuva, um frio de matar e minhas pernas

    No dia em que a gente desceu em Londres (e todos os dias que precederam este) eu não tinha a menor noção de como aquela cidade é imensa. Nem mesmo vendo o mapa. Nem mesmo sabendo das zonas.
     No dia em que a gente desceu em Londres estava chovendo muito e do avião deu pra ver quase a cidade toda enquanto chegava. Era realmente muito grande. E tinha o rio. E estava nublado, o que eu passei a amar ainda mais naquele momento enquanto eu preenchia o formulário de imigração e achava que ia morrer a qualquer momento de tanto que meu ouvido entupido doía (sério, doeu muito). Era o segundo voo do dia (e da vida), pegamos esse avião pequeninho em Madri depois de 12 horas desde o Rio até a Espanha.
     Londres.
     Na minha cabeça de viajante internacional de primeira viagem (rysos) tudo fora do Brasil devia brilhar igual diamante. É daquelas coisas que aparecem na nossa mente como em sonhos - quando meu pé encostar lá vai ser diferente. Mas era um aeroporto normal, o chão era da mesma cor que aqui. Fazia um frio petropolitano (e marido de bermuda, abafa) e chovia. E era Londres.
     Então por mais que o chão fosse da mesma cor e as pessoas todas tivessem dois olhos e uma boca (in.crí.vel) eu não acreditava, eu ficava repetindo na minha cabeça - eu tô em Londres, eu tô em Londres - pra ver se eu acreditava. E eu não acreditava. E eu tava em Londres.
     Na minha cabeça faz sentido eu querer dizer tudo desse post nessa frase que terminou o parágrafo anterior. Eu estava em uma das cidades mais incríveis do mundo. História por todo lado. Memória. Inglês - britânico. Névoa. Londres. Era muito surreal meu corpo estar presente lá, respirando aquele ar, falando inglês porque não tinha opção pela primeira vez. Eu cheguei ao extremo de loucura de pensar que dali a uns dias eu teria apenas comida londrina no meu corpo.
     E aí teve a imigração (descemos no London City, e não no Heathrow. Só saímos do Heathrow para Berlim). E teve o metrô. Muito metrô. No metrô foi aquela sensação "gente tô em São Paulo" mas tinha o Mind The Gap que martela toda.hora na nossa cabeça.
     E aí a gente descobriu que o hotel era muito longe do centro. Muito longe. Uma hora e meia de metrô longe. Mais um ônibus.
     Não vou mentir. Foi muito ruim. Nenhum dos mapas que vimos ao reservar o hotel revelou aquela distância. E os gastos que apareceram porque era muito metrô (fica mais caro se você atravessar todas as zonas, e era o caso) e mais o ônibus até o metrô mais próximo. A gente saiu do Rio as 21h de segunda e pisou no hotel às 17h de terça, horário local. O cansaço não deixou sofrer com o fuso de 4h. Chorei muito. Chegou num ponto que eu estava chorando porque eu vi a distância que a gente tava do centro (e isso dificultava tudo) junto com o sempre "tô em Londres tô em Londres tô em Londres". E mais o chegamos no hotel sem errar. A reserva deu certo. O quarto é ótimo. Meu marido tá em Londres comigo. Essas coisas.
     Comemos pizza no restaurante do hotel, uma pizza maravilhosa, tomamos a primeira cerveja verdadeira da nossa vida. Tô em Londres. Na terça viajamos de trem pra Nottingham (e deixei minhas pernas lá, não sei mais viver depois daquilo). Na quarta assistimos a um evento na Universidade de Londres, no Queen Mary Campus. Na quinta, fomos turistar  - descemos no Green Park e andamos até a St Paul's Cathedral. Muita chuva e um frio de matar. Foi a primeira vez na viagem que o frio pegou firme. Achei que fosse passar mal. Compramos um café numa barraquinha no GP e eu vi o Buckingham Palace lá longe, e eu entendi que eu estava no Green Park. Não tinha mais frio, nem chuva. Era eu, marido e Londres.
     E teve isso aqui, né.




     As gotinhas na grade são chuva, mas bem que podia ser lágrimas minhas. Chorei vendo o Big Ben, julguem. Tem um pedacinho da London Eye no cantinho dessa foto que eu só vi hoje, agora, nesse momento.
     Enquanto a gente andava, escurecia. Londres se vestiu diferente enquanto eu caminhava seguindo o rio. Ela mostrou muitas luzes, uma arquitetura louca, um prédio torto arredondado todo de vidro de um lado e um da época de Shakespeare do outro. A gente tava com o pé molhado, morto de tanto andar, mas na verdade a gente não tava nada disso. A gente tava em Londres.
     E teve isso também:


   
     Apenas A ponte. Chorei [2].
     Depois de ver a Saint Paul's tivemos que caçar rumo de hotel porque o metrô só ia até umas 23h e a distância era muita. Descemos em South Kensington porque sim. Não sabíamos nada de lá, escolhemos pela estação de metrô. Pra caçar alguma coisa pra comer. Achamos um pub que existe desde mil setecentos e fucking trinta.



     Comemos fish and chips, um sonho realizado.
     Passamos por uma situação engraçada numa lojinha de souvenires: eu escolhendo um chaveiro e o dono da loja perguntando a marido se éramos casados, se o casamento foi por amor ou arranjado, se não tínhamos filhos porque não gostávamos de crianças, que parecíamos ser sauditas e se gostávamos do Paquistão. Marido foi espirituoso o bastante pra responder com um neutro "I've never been there" e caímos fora. Comprei o chaveiro de telefone vermelho. Foi feito na China.
     Eu não gosto de "posts de viagem", daqueles com formato pré-definido de "fui aqui/ coma ali/ visite isso". Nunca leio e acho que é pra se "amostrar". Acho que é a primeira vez que falo com detalhes disso aqui.
     Não sei se é o aniversário chegando ou o quê, mas que tá difícil estar aqui e não lá, ah, isso está. É o sempre "estive em Londres estive em Londres estive em Londres".
     E deixei minhas pernas - meu coração - lá.






2 comentários:

  1. "Não tinha mais frio, nem chuva. Era eu, marido e Londres."

    ...vou ter que ir para Londres, buscar seu coração!
    te amo...

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    1. ele vai estar onde vc estiver <3
      te amo

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